#43 Vidas Passadas
Sem subtítulos, sem enrolações. Sem tempo, irmão!
Oi, tudo bem?
Fiz mil introduções, quase todas falando do tempo. Quase todas ficam no meio do caminho, pois o tempo muda o tempo todo. Aliás, acho que essa cartinha é um pouco sobre isso.
Outras vidas, tantas vidas
Assisti recentemente ao filme Vidas Passadas. Passada fiquei eu, achando que o filme era do ano passado, quando na verdade, é de 2023. Não vou colocar o meme da Fátima e Suely, mas relembre: “olha lá… é o tempo… passando”.
O filme tem tudo e nada a ver com os temas que gostaria de trazer pra cá hoje. A verdade é que ele me impactou fortemente.
Na superficialidade, parece ser a história de um amor da infância. Ou da busca de um sonho. Seja o GreenCard, seja o Nobel, o Pulitzer ou o Tony. Talvez seja a história de imigrantes, adaptações e renúncias. Talvez seja a história de quem não sabe mais onde é o seu lar. Coreia, Canadá, Estados Unidos. Talvez seja tudo isso e mais um pouco. E de superficial, ele não tem nada.
Para quem passou boa parte da vida mudando de cidade em cidade, e até de país, o filme trouxe pequenos gatilhos das minhas inúmeras vidas passadas.
Em 2009, graças ao advento das redes sociais, o grupo com o qual convivi intensamente dos 07 aos 10 anos, se reuniu, mais de 20 anos depois de nos conhecermos. Foi super bacana esse reencontro. Entramos para o whatsapp, tivemos encontros anuais, revivemos momentos que foram muito especiais na nossa infância. E isso teve uma importância enorme.
“A gente teve um trelelê naquela época”, veio um assanhadinho querendo resgatar a crush de infância. “Tivemos? Num lembro”, respondi. Meses depois me dei conta que sim… mas o toco seguiu.
No meio da pandemia, a polarização chegou ao grupo e muita coisa me encheu o saco. Relevei um pouco, afinal éramos os tais grandes amigos de infância. Dois ou três anos atrás entendi que não dava mais. Não consigo engolir algumas atitudes e incoerências.
E nem por isso, deixo de amá-los. No entanto, entendi que os amo lá naquela época. Lá naquela vida. Uma vida que não existe mais. Literalmente uma vida passada. E esse ponto da vida adulta é muito doloroso. Entender que somos capazes de amar nossas vidas passadas mas não necessariamente trazê-las para viver o presente.
E isso não é só sobre amizades. Também pode ser sobre profissões, lugares e por todas as escolhas pelas quais passamos ao longo da vida.
Tudo passa. O tempo, a vida, nossas certezas e realidades. A vida é inconstante e muda a cada minuto. E de tempos em tempos vivemos os lutos pelos caminhos que deixamos pra trás.
Trazer com carinho aquilo que vivemos e passamos é honrar nossas escolhas de hoje.
Assim como no filme, entender isso é doloroso (cena final, sem muito spoiler), mas é lindo e sensível.
Entendi? Não sei. Só sei que a cada dia que passa me sinto mais consciente e confortável com as escolhas que fiz e faço diariamente.
PS: eu ainda amo - no tempo presente - muuuiiiitas dessas pessoas ai da última foto.
Permita-se ser vista e, inclusive, mal vista
Em 2019, comecei a sentir os primeiros sintomas do climatério. Menstruação atrasada foi o principal indício desta fase. Ainda assim, demorei uns bons anos e uma pandemia no meio para compreender o que aquilo significava. A incompreensão à época me deixou em frangalhos. Até cogitar uma gravidez, eu cogitei. Gastei dinheiro com o teste mais caro da farmácia e solicitei um pedido médico para fazer o beta hCG.
Tolinha.
Não era gravidez.
Ainda no ano de 2019, num impulso - como sempre me ocorre -, resolvi fazer um ensaio fotográfico “temático”. O tal do boudoir, ou seja, um ensaio sensual. Nunca tinha feito nada parecido e me aventurei.
Naquele tempo, muitas coisas me passavam pela cabeça, mas quase 7 anos depois, talvez eu consiga elaborar melhor e entender aquele momento. Fazer o boudoir foi uma das formas de legitimar uma afirmação um tanto quanto infantil - olha como aos 46 anos ainda dou um caldo?
Sim, como se não bastasse uma vida inteira de baixa auto-estima, o climatério só aumentou a sensação de invisibilidade.
Algumas fotos estão lindas. Não nego! Outras, eu enxergo meu constrangimento, a sensação de invasão e uma certa irrealidade naquelas imagens.
Sou eu. Mas não sou eu.


O mundo girou - demais - e veio a pandemia, o caos da transição entre perimenopausa e menopausa, o luto de um término - acá Mandarina -, muitos quilos, inseguranças, medos e tudo aquilo que sobrecarrega a nós, mulheres. A lista é enorme, você sabe.
Cobrança alheia, autocobrança, baixa autoestima - que nunca foi alta, mas a menopausa faz o favor de derrubar ainda mais, repetitiva sou -, a casa dos 50, o derretimento do colágeno e seguimos. Fiz escolhas ao longo desses anos das quais não me arrependo, especialmente a de deixar meu cabelo crescer naturalmente - oi, grisalhos - e emagrecer com os recursos acessíveis. Muito choro, muito pilates, muita terapia, muita reposição hormonal.
De tudo um muito.
Corta para 2026.
Quase 15kg a menos, um emprego fixo - PJ, mas é o que temos -, meu cabelo no auge - sério, ele tá lindo demais - e o contato com uma fotógrafa diferente. Não sei muito a história da Annie Libert mas conheço suas imagens e sua simpatia. Foi o suficiente. Criei coragem e me joguei!
Conversei com a Bella, minha amiga consultora de estilo - tivemos a mesma ideia sobre um dos modelitos para as fotos: terno e gravata. Definitivamente, é a minha cara! Ganhei uma chemise chiquérrima que entrou na lista. Havaianas, short jeans e camisa de linho branca - um brinco de brilhos para contrastar - meio carioca, meio eu - não sou carioca, lembra, né!? Um vestido que nunca mais usei desde o casamento da própria Bella em janeiro de 2010 - um quê de maternidade.
Nada é por acaso, tudo é pensado, tudo é proposital. Mesmo que a gente não queira. Quem sou eu? Quem eu quero ser? Como eu me vejo, como eu quero que me vejam? Tem a ver com o reconhecimento e com a sustentação daquilo que quero pra mim. Um pouco de maternidade, um pouco de poder e um tanto de brilho e relaxamento. (Nossa, até eu me surpreendi com essa conclusão / frase feita, nem coach me supera….)
Pois é, eu tenho uma queda por fotógrafas. Debora Agualuza, com as fotos de boudoir - definitivamente, não é meu estilo, mas ela tem todo o mérito de trazer sensualidade e autoestima. Lu Zenti, artista das lentes com seu olhar jornalístico para as fotos de parto, crianças e festas. Helena Peixoto, sou fã de carteirinha, já disse, volto a repetir e sem ela, boa parte dessa newsletter não existiria! Bia Nauiack, com quem fiz um projeto chamado de Comida Fotogênica, mas que agora se dedica a registrar ambientes e projetos arquitetônicos. Ok, trago um homem, Klacius Ank, fotógrafo que fez os lindos registros - analógicos - do meu casamento.
Outros tantos entram na lista - pois se tem uma arte da qual sou fã, é a fotografia. Aliás, um adendo: meu sonho sempre foi ser fotógrafa. Mas isso é outro assunto e fica para a próxima encarnação.
Annie Libert mora, literalmente, dentro da Praça Osório. Logo na porta de entrada, frases soltas e poesia. Sua casa é um convite a viajar. A sala é estúdio, é floresta, é história em detalhes que talvez só ela saiba. Fiquei feliz de encontrar alguém que não se deixa levar pela estética atual. Sendo casa e estúdio, tem vida, cor, desordem e história. Invejei.
Marisa Monte na vitrola, um fundo bordô no cenário, uma cadeira, terninho, gravata, luz. Ação. Foi muito difícil me sentir à vontade. Eu quero registrar meu sorriso, minha alegria. E lembro que ODEIO minhas fotos espontâneas com a minha risada. Muita cara de sapato (pega o meme, por favor!).
Sem álcool - que bom -, sem escape, acreditei um pouco em mim, nas caretas que faço normalmente. Ao estilo Mariah Carey de ser, sei que tenho um lado mais fotogênico. Não me importei, vai o que der. Vira, gira, faz cara séria. Socorrrooo, eu séria é a pior coisa que você pode fotografar. (e tenho razão, nem vem….) Senta, levanta, troca de roupa, ajusta lookinho, vai descalça mesmo, gira, agita o vestido, olha pra cá, olha pra lá. Acompanha o movimento.
Mais de 300 cliques depois, exaustão.
Expectativa do resultado e de repente…
Se ver pelo olhar do outro é uma coisa bem difícil. O olhar do outro carrega o nosso julgamento e o julgamento do outro também. Suas preferências e referências, o peso de não entender as suas escolhas: pinta o cabelo, faz henna na sobrancelha, já colocou fios, botox resolve, não parece a idade que tem, precisa se cuidar mais, tá fazendo musculação, contrata um personal, tem que se exercitar. É o outro falando com o olhar e, muitas vezes, é você mesma julgando o olhar do outro.
Tem pontos interessantes nesta lógica: aprender a não se importar com o olhar do outro. (Dizem que com a idade isso passa - não devo ser velha o suficiente ainda.)
“É incrível como você é fotogênica” - entender que essa frase não é um elogio, é fundamental!
E aprender que é possível se deixar ver pelo o olhar do outro. Eu realmente “apareço” e me reconheço em muitas dessas 300 fotos. Bonitas ou não, eu estou ali, estou me vendo e consigo me reconhecer nelas. Isso é sobre se permitir ser vista, de alguma forma se desnudar e aceitar sua beleza e suas imperfeições.
Parece que um milagre aconteceu, mas não se iluda, ainda preciso trabalhar muito a minha autoestima na terapia. Uma infância e juventude com um dos apelidos mais destruidores e pessoas ao redor que não ajudaram muito, não se curam assim numa sessão de fotografia…
Quando eu compartilhei essas fotos em um grupo de amigas, escrevi pra elas “depois que o mundo acabou e eu morri várias vezes ao longo desses 6 anos, achei que meu renascimento tinha sido ano passado. Mas entendi, a partir dessas fotos, que agora consigo me ver renascida. Meu nome, Renata, significa renascer/renascida. Eu experimentei meu primeiro renascimento logo ao nascer - literalmente. O fato é que ao longo da vida a gente experimenta diferentes tipos de renascimentos. Mas o de se enxergar e sentir a beleza que temos talvez seja o mais difícil.”
Ok, não foi bem assim - tim-tim por tim-tim -, porque comecei a chorar, mas era isso que eu queria dizer.




Ah! Além de se permitir ser vista pelo outro, experimente ser mal vista, como diria a musa Ana Paula Renault. É libertador demais!
Qual é a música, Pablo?
Uma coisa incrível - terrível, na verdade - aconteceu… e eu fiquei chocada demais. Estava na fila do quilo e no som ambiente do restaurante tocava uma marchinha de carnaval revisitada, bem levinha. Óbvio que comecei a cantar enquanto pegava a comida. Queria mesmo era dançar, mas a leveza da versão nem permitia minha empolgação. O jovem senhor - meio almofadinha, meio farialimer - que estava na minha frente resolveu interagir:
- “nossa vc conhece essa música?”
- Ué, claro.
- “Nunca ouvi”.
- Oi?
- “E eu trabalho com rádios e mídia, nunca ouvi na vida”.
- Moço, você nunca pulou carnaval?
- “Com esse tipo de música não….”
- Sinto muito pelo senhor…
Virei as costas e sai…. JUROOOOOO!
Zé Keti e Pereira Matos merecem toda nossa gratidão e reverência por uma das composições mais tradicionais e lindas do nosso carnaval, eternizada na voz de Dalva de Oliveira e que ganhou versões maravilhosas como a da Elza Soares, da Maria Rita e do Zé Renato. Escutei várias no Spotify… certeza que vai entrar na minha lista do fim do ano!
Obrigada por chegar até aqui.
Beijocas,
Rê






O meu olhar é que seus textos estão cada dia melhores! E que essas últimas fotos estão um arraso de lindas! Ou seja, você melhor e mais linda : )
Ameeeeeei!